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sábado, 5 de novembro de 2016

Técnica e Ética

Ricardo Bins di Napoli

 A ciência e a técnica atingiram de tal forma a vida humana em seu todo que se tornaram, por essa razão mesma, um problema para a filosofia. Por técnica entende-se hoje a aplicação da ciência pura para fins utilitários, a fim de aperfeiçoar um ou outro aspecto da vida humana ou mesmo propiciar novo desenvolvimento no campo científico. 
Assim, ciência e técnica estão hoje em uma interação tão grande que já não se pode separar uma da outra. A técnica acompanhou o desenvolvimento da ciência - mecânica, química, eletrodinâmica, física nuclear e biologia. 
Por isso, pensar filosoficamente a técnica inclui pensar a da ciência. Se  a técnica é parte constitutiva de nossa vida, não é mais possível nem a sua demonização, como fizeram os filósofos T. Adorno, M. Horkheimer e H. Marcuse, denunciando-a como uma nova forma de dominação e controle da transformação social, nem tampouco fazer dela uma nuvem inebriante, que, depois de inalada, nos transporta ao mundo idealizado de um futuro de facilidades e liberdade do trabalho.
Mais realista seria, como afirma Hans Jonas, assumir a ambivalência própria de toda nova técnica, pois toda nova descoberta pode ser usada tanto para fins considerados bons (cura de doenças) como para fins considerados maus (destruição dos outros homens ou outros seres vivos). 
A técnica, ao dar poder ao homem, gera a pergunta sobre o bom e o mau uso desse poder. Pior ainda é que mesmo o bom uso do poder da técnica pode gerar resultados imprevistos, considerados moralmente condenáveis. Um exemplo disso é o desenvolvimento de medicamentos contra a AIDS. Explico-me. Há já algum tempo, as empresas produtoras desses medicamentos contestam a produção brasileira dos genéricos e a distribuição universal de medicamentos do governo brasileiro aos infectados pelo vírus HIV. Se selecionássemos quem teria direito de receber e quem não, ter-se-ia uma discriminação entre os beneficiários e não-beneficiários da ciência: o que é moralmente condenável. 
Um outro aspecto importante da técnica é o fato de ela afetar o homem não só no presente, mas também no futuro. Assim as doenças provocadas pelo uso bélico da tecnologia nuclear foram transmitidas às gerações futuras. Toca à Ética, no sentido filosófico, o papel de oferecer condições para a decisão consciente dos indivíduos e a justificação a sua negativa em participar da aplicação dos produtos da técnica e da ciência de modo destrutivo. Ao próprio ser homem, cabe a mobilização de todos os que partilham de uma mesma perspectiva em uma comunidade ética, para conduzir, por meio da política e do direito, suas ações, a fim de encontrar os meios concretos de controle e, caso necessário, de coerção legal ou constrangimento moral daqueles que, mesmo dentro da comunidade humana, seja nacional ou mundial, querem arruinar ou aniquilar o próprio homem. 

 24.05.2001