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domingo, 27 de agosto de 2017

Ética e Política

É possível separar a ética da política? Norberto Bobbio, que é um dos mais importantes pensadores políticos contemporâneos, conhecido no Brasil com um número significativo de obras disponíveis ao leitor brasileiro, sugere que sim. Mas essa resposta deve ser relativizada e criticada.
Embora Bobbio transite tanto por análises teóricas como por análises mais empírico-históricas, ele faz questão de distinguir o campo da Filosofia Política e o da Ciência Política. Quanto à primeira, caberia a pesquisa sobre a melhor forma de governo ou república, sobre o fundamento do poder político, sua justificação, e sobre a noção mesma do político; a segunda seria responsável pela pesquisa empírica dos fenômenos concretos da política, abstendo-se do julgamento de valor sobre os fatos investigados, mas submetidos ao processo de crítica à falsificação dos resultados obtidos. 
Das questões envolvidas pela Filosofia Política, duas não só são diretamente relacionadas com questões de valores, como Bobbio bem admite, pois implicam  distingüir a boa e a má forma de governo ou república, como também visam a encontrar um bom fundamento para o poder. Essas características marcam, ao meu ver, diretamente a presença da Ética na reflexão política. 
 Mais importante ainda é o fato de Bobbio admitir que a separação entre Filosofia Política e Ciência Política é "lábil e discutível". Justamente aí está um ponto central da questão. Bobbio é consciente das dificuldades da separação radical que faz. Eu diria mais: o pior não é reconhecer uma distinção entre elas, mas usar essa distinção para desqualificar a investigação filosófica como "abstrata" ou, de qualquer modo, como menos importante. Mesmo Maquiavel, tomado pelos defensores da Ciência Política como o marco da distinção entre Filosofia (Ética) e Política (Ciência Política), pode ser lido como um republicanista. Ele  enfatiza a idéia de ser importante que os governos criem canais autorizados para os homens extravazarem suas paixões, e não porem em risco o próprio governo. 
Se a Filosofia Política foi capaz, como bem expressou Renato Lessa, de propor mundos possíveis com capacidade de permanência, enquanto modelos, que nos permitem comparar o que vemos, pois agregam, entre outros elementos, por exemplo, paradigmas de justiça e de racionalidade prática, por que desqualificá-la? Não foram os filósofos liberais e igualitaristas responsáveis por idéias que hoje se traduzem em vários direitos conquistados nas sociedades democráticas atuais, como liberdade de expressão e direito de voto das mulheres, impensáveis há quatro séculos?
Não seriam também motivos ético-políticos que nos permitiriam condenar publicamente, ainda que de forma diversa, a violência das gangs de traficantes, as invasões do MST e dos militantes de partidos ditos de esquerda que queimaram, há algum tempo, o relógio comemorativo dos 500 anos em Porto Alegre?
Esses grupos, ao usar métodos violentos, negam total ou parcialmente a sociedade política democrática instaurada e querem, à margem das regras, por canais não legitimados por ela, modificá-la a seu modo, isto é, por meio da violência. A violência não legítima, arbitrária, fere a liberdade coletiva, condição fundamental da democracia.
À luz desses fatos, não se pode aceitar a posição de Bobbio que propõe a separação entre a Ciência Política e a Filosofia Política, defendendo a Ciência. Essa segunda  trataria de explicar simplesmente, em termos de relações causais, a violência praticada tanto por traficantes, por membros do MST, como por militantes políticos, por exemplo. 
Complementando as explicações da Ciência Política, teria-se ainda que nos perguntar, se esse tipo de sociedade é boa e o que se pode fazer para melhorá-la, a fim de que esses fatos não façam mais parte  de nosso cotidiano. O mesmo valeria para a violência da polícia, quando esta excede suas atribuições. 
A Ética contida nas análises filosóficas da política, a meu ver, portanto, complementa a Ciência Política e de forma alguma proprõe substituí-la.


A qualidade da democracia e a cidadania.



Ricardo Bins di Napoli
           
            O indiciamento de vários políticos, até membros de cúpulas partidárias, participantes do chamado Mensalão e o afastamento do Presidente do Senado poderiam ser vistos como fatos que contribuem para o fortalecimento da democracia, como alguns estão interpretando? Talvez, dependendo dos desdobramentos que ainda estão por vir, tanto num como no outro caso.
            De fato, não sabermos exatamente como se darão os procedimentos legais, uma vez que isso não é de domínio do público, mas é um conhecimento privilegiado de operadores do direito. Esses, a meu ver, dariam uma grande contribuição à sociedade por meio da imprensa se começassem a traduzir o que deverá acontecer com os mensaleiros. O que significa a aceitação da denúncia no Supremo Tribunal Federal, no caso do Mensalão? Da denúncia à condenação há uma longa e sinuosa estrada, que dependerá muito da imprensa também.
            De todo o modo, pode-se dizer que a qualidade da democracia depende da efetividade da lei. Se as leis não valerem universalmente (igualmente para todos) jamais teremos democracia de fato nesse país. Deve-se entender que a lei é, em seu conteúdo e em sua aplicação, “uma condensação dinâmica de relações de poder, não apenas uma técnica racionalizada para ordenar relações sociais”, então a sociedade como um todo, que está fora do poder, precisa se fortalecer para que a lei seja cumprida. Essa é uma tarefa do cidadão e para o cidadão. Ele precisa pressionar através da imprensa e usar o Ministério Público para fazer valer o cumprimento da lei, principalmente por aqueles que ocupam cargos de poder.
            E atente-se para o fato de que a qualidade da democracia depende também da redução das desigualdades sociais inclusive na aplicação da lei. Para isso o cidadão precisa ter condições de participar da vida política e social dignamente. Por isso, a democracia só terá qualidade se os cidadãos tiverem as condições mínimas de sobrevivência (emprego, habitação, educação, saneamento e saúde). Sem isso fica quase impossível que pessoas possam fazer valer seus direitos políticos e sociais.
            Evidentemente, não se está querendo dizer que os direitos políticos não tenham efetividade, sem uma redução da desigualdade. Pelo contrário, o que se tem visto na história, é que sem eles fica impossível o desenvolvimento da cidadania efetiva, ou seja, maior igualdade na realização dos direitos políticos. Direitos políticos e sociais dependem uns dos outros. Onde foram eliminados os direitos políticos, foram eliminadas também as possibilidades da democracia. Em outras palavras, sem as conquistas do Estado Liberal não pode haver Estado Democrático.
Um Estado democrático legal forte – que efetivamente estenda seu poder regulatório sobre a totalidade de seu território e por todos os setores sociais – deve ser um Estado de Direito. Isto significa que este Estado deve funcionar como sistema de leis hierarquizadas coroado por uma Constituição, de modo a se poder evitar que exista uma situação em que a vontade de um determinado indivíduo possa cancelar ou suspender regras que governam o comportamento de todos.
O Estado de Direito significa um Estado, no qual as leis devem ser passíveis de ser seguidas, isto é, elas não podem exigir habilidades cognitivas ou comportamentais que estejam além das capacidades de um indivíduo. Nesse Estado, os tribunais devem: ser independentes, assegurar a conformidade ao espírito da lei, ser acessíveis aos cidadãos. Por fim, deve-se evitar a impunidade da polícia e de outros órgãos de segurança e a violência exercida por agentes privados ou mesmo a cumplicidade da polícia e dos tribunais com esses atos.
Como se vê, a consolidação da cidadania e do exercício dela depende da existência de indivíduos que partilham a autonomia e a responsabilidade com os demais em uma vida coletiva, e sendo assim, eles podem existir como pessoas legais e agentes autônomos de suas próprias ações.

Por isso, voltamos sempre à pergunta: Como garantir no país a construção da cidadania e desta democracia com qualidade ainda inexistentes?

sábado, 5 de novembro de 2016

Técnica e Ética

Ricardo Bins di Napoli

 A ciência e a técnica atingiram de tal forma a vida humana em seu todo que se tornaram, por essa razão mesma, um problema para a filosofia. Por técnica entende-se hoje a aplicação da ciência pura para fins utilitários, a fim de aperfeiçoar um ou outro aspecto da vida humana ou mesmo propiciar novo desenvolvimento no campo científico. 
Assim, ciência e técnica estão hoje em uma interação tão grande que já não se pode separar uma da outra. A técnica acompanhou o desenvolvimento da ciência - mecânica, química, eletrodinâmica, física nuclear e biologia. 
Por isso, pensar filosoficamente a técnica inclui pensar a da ciência. Se  a técnica é parte constitutiva de nossa vida, não é mais possível nem a sua demonização, como fizeram os filósofos T. Adorno, M. Horkheimer e H. Marcuse, denunciando-a como uma nova forma de dominação e controle da transformação social, nem tampouco fazer dela uma nuvem inebriante, que, depois de inalada, nos transporta ao mundo idealizado de um futuro de facilidades e liberdade do trabalho.
Mais realista seria, como afirma Hans Jonas, assumir a ambivalência própria de toda nova técnica, pois toda nova descoberta pode ser usada tanto para fins considerados bons (cura de doenças) como para fins considerados maus (destruição dos outros homens ou outros seres vivos). 
A técnica, ao dar poder ao homem, gera a pergunta sobre o bom e o mau uso desse poder. Pior ainda é que mesmo o bom uso do poder da técnica pode gerar resultados imprevistos, considerados moralmente condenáveis. Um exemplo disso é o desenvolvimento de medicamentos contra a AIDS. Explico-me. Há já algum tempo, as empresas produtoras desses medicamentos contestam a produção brasileira dos genéricos e a distribuição universal de medicamentos do governo brasileiro aos infectados pelo vírus HIV. Se selecionássemos quem teria direito de receber e quem não, ter-se-ia uma discriminação entre os beneficiários e não-beneficiários da ciência: o que é moralmente condenável. 
Um outro aspecto importante da técnica é o fato de ela afetar o homem não só no presente, mas também no futuro. Assim as doenças provocadas pelo uso bélico da tecnologia nuclear foram transmitidas às gerações futuras. Toca à Ética, no sentido filosófico, o papel de oferecer condições para a decisão consciente dos indivíduos e a justificação a sua negativa em participar da aplicação dos produtos da técnica e da ciência de modo destrutivo. Ao próprio ser homem, cabe a mobilização de todos os que partilham de uma mesma perspectiva em uma comunidade ética, para conduzir, por meio da política e do direito, suas ações, a fim de encontrar os meios concretos de controle e, caso necessário, de coerção legal ou constrangimento moral daqueles que, mesmo dentro da comunidade humana, seja nacional ou mundial, querem arruinar ou aniquilar o próprio homem. 

 24.05.2001

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Previdência Social e Justiça


Ricardo Bins de Napoli

            A questão da Previdência Social no Brasil tem sido abordada sob os mais diferentes ângulos. Só pela diversidade de aspectos, que ela envolve, pode-se concluir a sua complexidade.
Sob a ótica das finanças públicas, impõe-se aos governos em todos os níveis resolver o déficit público. Neste aspecto a questão é seríssima, pois diz respeito a uma dívida de todos nós, embora poucos sejam os responsáveis pela situação atual.
Do ponto de vista político, que depende da orientação do partido político ou do representante face aos compromissos determinados que assumiu com sua base eleitoral, seja da situação ou oposição, a resolução da Previdência, parece implicar em interesses particularistas inconciliáveis.
O aspecto social e negativo do déficit da Previdência é que cada vez mais se deixa o conjunto das pessoas, contribuintes, desasistidas. O jurídico, que envolve uma discussão sobre os direitos dos indivíduos que entraram em um sistema que era diferente do atual, contribuíram efetivamente toda sua vida profissional ativa e que agora vêem suas expectativas frustradas, pois se defrontam com a possibilidade de voltar a contribuir para a Previdência..
Há também o aspecto atuarial apontado pelo prof. da UFRGS Sérgio Rangel Guimarães (ZH 22.10.99), que envolve distorções tremendas no sistema. A questão da idade precoce das aposentadorias é uma delas. Em 1999, segundo dados apresentados por Guimarães, a idade dos aposentados seria em média de 49 anos, quando hoje a expectativa de vida é muito superior. No setor público em 1998, dois terços do total de aposentadorias eram de pessoas com idade inferior a 55 anos. Ainda é relevante o fato que 14% do total tinha idade inferior a 45 anos. Ora, segundo entendo, qualquer plano de aposentadoria tem que prever que o tempo de contribuição deve cobrir os valores a serem pagos no tempo em que a pessoa ficar viva depois de aposentada.
Outra grande distorção, com a qual concordava Lula (artigo em ZH, 10.10.99), é o fato de que uma minoria recebe benefícios excessivamente altos, como, por exemplo, os funcionários do legislativo e do judiciário. Esses, como se sabe, recebem até mais de uma aposentadoria por terem exercido diferentes cargos. Porque não só uma? Certamente há uma legislação que gera essas distorções. A propósito, lembra Guimarães que 75% do déficit do ano de 1999 será para o pagamento de apenas 3 milhões de aposentados de um total de 20 milhões. Esses, inclusive, afirma, serão os maiores beneficiários da decisão do STJ. Este fato ilustra também a situação daquelas aposentadorias elevadas pagas pelo Estado do RS.
Lula queria, na época, atribuir todos os problemas da Previdência ao atual governo, dizendo que foi ele que diminuiu a receita, pela sua política econômica recessiva (Plano Real) que “empurrou milhões de brasileiros para a informalidade”, pois entre 1990 e 1997 subiu o número de trabalhadores sem carteira assinada, passando de 5% para 27% do total da população economicamente ativa (ZH 10.10.99).
De fato parece ser verdade, admitida pelo próprio governo, que o déficit da Previdência começou em 1995 ou até antes em 1993 (Zero Hora, 24.10.99). Mas as causas não se resumem às apontadas pelo líder do PT.
Um fato porém esquecido por muitos, inclusive por Lula, é que a Constituição de 1988 estendeu os benefícios aos trabalhadores rurais (4,5 milhões de pessoas) e, com a unificação dos regimes jurídicos ampliou, no serviço público, o benefício da aposentadoria integral a milhares de pessoas. Tudo isso, ao que parece, sem prever de onde sairia o dinheiro. O então ministro da Previdência Social Waldeck Ornélas, informou também, em entrevista jornalística (ZH 24.10.99), que de fato os funcionários públicos, até 1993, nunca contribuíram para a sua aposentadoria de forma adequada, pois os valores eram inferiores aos necessários para custear o sistema. Isto é até surpreendente. Por que o governo só se deu por conta agora? E os outros governos o que fizeram?
Divulgou-se (ZH, 24.10.99) ainda dados de uma pesquisa realizada sobre a Previdência, que desde a sua criação em 1966, foram desviados 400 bilhões de reais.
Creio que o leitor já deve ter percebido que o problema existe há muito tempo, e não é uma questão deste ou daquele partido, pois aos níveis estaduais e municipais a questão não é diferente com os benefícios pagos aos servidores.
A questão da Previdência merece, por isso também um enfoque ético, que deveria orientar o debate. Neste sentido fica a pergunta: diante do problema a ser resolvido: o que é mais justo de modo a não prejudicar os contribuintes (empregados e funcionários) de salários baixos e médios? A consideração deste aspecto da justiça é responsabilidade do Congresso. É responsabilidade de todos os cidadãos cobrar de seu representante uma posição adequada ao  momento atual.



Liberalismo: Neutralidade em relação a valores?



Ricardo Bins de Napoli


         Um dos pilares do pensamento liberal, tal como proposto por F. A. Hayek, é a noção de liberdade enquanto liberdade negativa, isto é, liberdade enquanto a ausência de coerção sobre o indivíduo, deixando-o livre para que, em sua esfera individual, ninguém possa interferir.
         Dessa concepção particular, seguindo-se a interpretação de R. Bellamy, derivam duas idéias: a primeira, que defende manutenção de uma neutralidade frente a valores; e a segunda, que considera um atrevimento perigoso querer-se planejar uma sociedade para produzir mais justiça, por exemplo. Hayek adota, com relação ao segundo aspecto, uma posição até certo ponto prudente, porque, justifica, os processos sociais e os objetivos individuais são por demais diversos e complexos para serem organizados. Qualquer tentativa de organizá-los resultará em imposições, o que contraria a liberdade. Por isso Hayek é contra os construtores de modelos sociais, que imaginam poder realizar no mundo real.
Seu pensamento parece coerente, porque se a liberdade é ausência de coerção, parece lógico que, para nos preservarmos mais livres, não devemos pretender alterar o curso das coisas através de imposições coletivas. Devemos, sim, tanto quanto possível, evitar disputas valorativas, que normalmente conduzem a decisões de impor uma ordem sobre grupos discordantes. O mercado, por exemplo, para Hayek, seria de certa forma o lugar onde menos se interfere na liberdade alheia. Por isso o Estado deveria assegurar apenas os bens públicos necessários ao funcionamento do próprio mercado, eliminando os males gerados por operações não regulamentadas, para evitar que a ordem econômica dê lugar à desordem.
Entretanto, colocado dessa forma, o argumento liberal não contém ele próprio uma posição valorativa, que ele quer evitar? De outra forma, poderíamos indagar, uma vez que o liberalismo propõe-se também como uma teoria política, se esta teoria está totalmente distante da ética. Seria possível pensarmos uma teoria política distanciada dos valores, da ética? Somente parcialmente isenta, no sentido sugerido por M. Weber no seu ensaio Ciência como Vocação.
O ódio à ética e a atitude derivada dela, enquanto uma demanda por reformas sociais baseada em princípios, tal como aquele expresso por teóricos, como o italiano V. Pareto, não seria bem mais um pessimismo conservador?
Se a melhor teoria política fosse julgada pelo critério de melhor descrever a realidade da política, enquanto prática dos homens, teria ela que necessariamente seguir o que Maquiavel propõe ao Príncipe Lourenço de Medicis? Talvez, mas seria com muita probabilidade igualmente conservadora, por permanecer demasiado apegada à necessidade de preservação do poder, sem pretensão de transformar a realidade em um certo sentido.
Uma postura diferente da de Maquiavel e também da de Hayek em Ciência Política seria aquela que não só pretendesse descrever como agem os homens politicamente, mas como seria melhor agir para que a sociedade fosse mais justa, no sentido de diminuir a desigualdade de renda entre os diferentes grupos sociais, por exemplo. Nesse caso poderíamos falar da liberdade em um sentido positivo. Ou seja, é a liberdade enquanto autodeterminação do homem ou autonomia. O homem que tem autonomia pode propor-se regras de conduta moral e fins racionais, como dizia I. Kant. Também G. F. Hegel enfatizou um conceito de liberdade, mas esse não só como autonomia, mas como ordem social racional realizável no contexto do Estado e dos fins propostos por esse. K. Marx pensou diferente. Abandonou a liberdade moderna, para lutar pela igualdade, alcançável somente pelo fim do capitalismo.
Mas essa postura carrega consigo o dilema: ou se produz uma sociedade mais igualitária, no sentido de ter indivíduos mais iguais; ou se abre mão do igualitarismo dando ênfase a liberdade individual. Esse dilema, foi bem apontado por Hayek no caso. Em seu livro The constitution of liberty ele afirma "o princípio da justiça distributiva, uma vez introduzido, não poderia ser satisfeito até que toda a sociedade tivesse sido organizada segundo ele. Isso iria produzir uma sociedade que, nos seus aspectos essenciais, seria o oposto de uma sociedade livre". Hayek imagina como uma sociedade sem liberdade aquela na qual a autoridade decidiria o que o indivíduo deveria fazer e como.

O conceito de liberdade de Hayek não indica a liberdade política, no sentido de liberdades, pois onde se fala de liberdade no sentido plural, já não existe liberdade. Não indica a liberdade como liberdade interior ou autodeterminação da vontade subjetiva em fazer algo independentemente das paixões. Não quer significar poder, que nos conduz a identificá-la com riqueza. Mas será o liberalismo de Hayek tão alheio a uma proposta de construção de um tipo de sociedade, como pensa R. Bellamy? Não é ele próprio um construtor de modelos?

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Concepções de Socialismo.

Há várias concepções de socialismo. 
Em geral os socialistas vêem a sociedade e a história humana de um modo bem simples: tudo se resume a uma luta entre ricos (burgueses) e pobres (proletários). Os acontecimentos históricos ocorrem porque grupos associados a estas duas classes sociais se degladiam pelo poder.
De modo particular duas concepções de socialismo estão ainda presentes nas visões políticas de partidos denominados de "esquerda" (socialistas) no Brasil.
1) Uma vertente seria a do leninismo (inspirada no socialista russo V. I. Lenin). A estratégia política desta vertente para chegar ao poder, comandar o governo e dirigir o Estado é a insurreição "popular". Então, por meio de greves, do que chamam de "conscientização" (no fundo, muita doutrinação), e participação ativa na política através de um partido organizado e de um exército popular (algo como um exército paralelo), conseguiriam chegar ao poder assumindo o governo e o controle de todas as funções do Estado em todos os níveis (Federal, Estadual e Municipal).
2) A outra vertente é a gramsciana (inspirada no socialista italiano Antonio Gramsci), que parcialmente discordou de Lenin. Esta vertente acredita que os ricos (burgueses ou a burguesia) dominam a consciência das pessoas a partir de um conjunto de ideias enganosas (ideologia) que as fazem acreditar, p. ex., que poderão progredir na vida se trabalharem. Os socialistas gramscianos não acreditam que o trabalho realmente seja bom neste momento, pois o capitalismo jamais possibilitaria que todos cheguem a ser medianamente bem de vida. Por isso, eles dizem que precisam "quebrar o edifício intelectual e moral" criado desde as Revoluções Comerciais no final da Idade Média. Essa cultura seria ruim para a humanidade, pois seria um pensamento gerado pela burguesia e não da "classe operária". Um dos meios mais eficazes para quebrar o "edifício" é a educação, por isso que ensinar nas escolas a visão socialista de mundo é a meta. Outro meio é influenciar as pessoas pela mídia e produtos culturais como a música, cinema, literatura, etc. Controlar a mídia ajudaria bastante esse grupo. Instaurar um modo de pensar único e homogêneo seria perfeito. 
Bem, dito isso, precisa-se dizer ainda que eles não acreditam muito na Democracia representativa. Ela é mais uma criação da burguesia. Então os socialistas, acham que a democracia atual é apenas uma forma capenga de democracia, porque nela as pessoas não podem dizer o que realmente pensam do governo. 
Aliás, como vimos no Brasil recente, a coisa foi bem ao contrário. Quando uma parte da sociedade foi as ruas para protestar contra o governo, alguns socialistas começaram a dizer que isso era coisa da "elite" e da "classe média" Criaram até uma denominação para os manifestantes ("coxinhas). 
O Brasil e a sociedade sociedade brasileira tem desigualdades sim, se precisa tratar de reduzi-las mas seria bom se ficar atentos para essas propostas escondidas nas posturas dos que se dizem "socialistas".
Não se pode esquecer jamais que, no século XX, alguns defensores do socialismo foram responsáveis pelos regimes totalitários que surgiram no Leste Europeu, e em outras partes do mundo. Esses regimes, socialistas e comunistas se assemelharam em muitas coisas com o Nazismo e Fascismo que dominaram a Alemanha, a Itália e o Japão e que, por uma vontade de dominação mundial, levaram a 2ªGuerra Mundial.

sábado, 15 de outubro de 2016

O papel da Filosofia nos dias atuais.


Ricardo Bins di Napoli

Da mesma forma me surpreendia que certos filósofos, entre eles Aristóteles, Kant e Hegel, afirmavam que certas categorias em número finito seriam suficientes para falarmos do mundo e descrevê-lo. Outros binômios nas categorias filosóficas encontramos tais como acaso e necessidade, possibilidade e necessidade, uno e múltiplo, parte e o todo, vida e morte, paixão (ou emoção, sentimento) e razão, o ser e o nada, existência e essência, essência e aparência, quantidade e necessidade, ato e potência, finito e infinito etc.
Me parecia muita pretenção imaginar que as categorias que se usa para definir o mundo seriam tão poucas, pois me parecia tão limitado. Será que não existem outras categorias ou conceitos que se venha utilizar para dizer outras coisas? E os fatos científicos novos, digamos a bomba atômica, gravidade, as particulas subatômicas que seriam partes de um todo, que na antigüidade era considerado indivisível, o átomo (o indivisível).
A filosofia deu origem a muitas áreas do conhecimento seja na antigüidade ou na modernidade. Por exemplo, a matemática (geometria), a lógica, a física, a química, a psicologia, a história, a estética, a sociologia, a antropologia e a ciência política. Este movimento de criação de novas áreas do conhecimento apoiado em novos métodos de investigação significou, por um lado, o encurtamento do domínio da filosofia como uma area de conhecimento que não buscaria por métodos empíricos descrever mais apropriadamente o mundo.
Muitos consideram que a filosofia é um metadiscurso sobre o mundo que busca falar dos mesmos objetos que a ciência investiga, mas entretanto, por meio de questões fundamentais do tipo o que é o mundo, o que é o bem moral, o que é o conhecimento, o que belo, o poder, a vida, o argumento válido e a verdade, entre outras.
Cada pergunta destas foi o centro da investigação das diferentes áreas da filosófia desde que a filosofia occidental surgiu, que chamamos respectivamente de Metafísica, Ética, Epistemologia, Estética, Filosofia Política, Lógica. Mas se a filosofia até agora em suas diferentes áreas não se utiliza de métodos empíricos como ela procede? Qual é o seu método de investigação? Ela utiliza-se da linguagem e das intuições do filósofo. Ela utiliza-se também de um métodos que não é único pois há diferentes, tais como: o fenomenológico, o transcendental, o hermenêutico, o dialético e o analítico.
Há alguns anos surgiu, entretanto, a necessidade nova de uma interpretação do que seriam os objetos de investigação da filosofia. A filosofia agora parece ter que justificar sua existência frente aos avanços da ciência e concorreria em certos momentos com o próprio conhecimento científico.


Abril de 2015