Ricardo Bins de Napoli
Um dos pilares do pensamento liberal,
tal como proposto por F. A. Hayek, é a noção de liberdade enquanto liberdade
negativa, isto é, liberdade enquanto a ausência de coerção sobre o indivíduo,
deixando-o livre para que, em sua esfera individual, ninguém possa interferir.
Dessa concepção particular, seguindo-se
a interpretação de R. Bellamy, derivam duas idéias: a primeira, que defende
manutenção de uma neutralidade frente a valores; e a segunda, que considera um
atrevimento perigoso querer-se planejar uma sociedade para produzir mais
justiça, por exemplo. Hayek adota, com relação ao segundo aspecto, uma posição
até certo ponto prudente, porque, justifica, os processos sociais e os objetivos
individuais são por demais diversos e complexos para serem organizados.
Qualquer tentativa de organizá-los resultará em imposições, o que contraria a
liberdade. Por isso Hayek é contra os construtores de modelos sociais, que
imaginam poder realizar no mundo real.
Seu pensamento parece coerente, porque se a liberdade é ausência de
coerção, parece lógico que, para nos preservarmos mais livres, não devemos
pretender alterar o curso das coisas através de imposições coletivas. Devemos,
sim, tanto quanto possível, evitar disputas valorativas, que normalmente
conduzem a decisões de impor uma ordem sobre grupos discordantes. O mercado,
por exemplo, para Hayek, seria de certa forma o lugar onde menos se interfere
na liberdade alheia. Por isso o Estado deveria assegurar apenas os bens
públicos necessários ao funcionamento do próprio mercado, eliminando os males
gerados por operações não regulamentadas, para evitar que a ordem econômica dê
lugar à desordem.
Entretanto, colocado dessa forma, o argumento liberal não contém ele
próprio uma posição valorativa, que ele quer evitar? De outra forma, poderíamos
indagar, uma vez que o liberalismo propõe-se também como uma teoria política,
se esta teoria está totalmente distante da ética. Seria possível pensarmos uma
teoria política distanciada dos valores, da ética? Somente parcialmente isenta,
no sentido sugerido por M. Weber no seu ensaio Ciência como Vocação.
O ódio à ética e a atitude derivada dela, enquanto uma demanda por
reformas sociais baseada em princípios, tal como aquele expresso por teóricos,
como o italiano V. Pareto, não seria bem mais um pessimismo conservador?
Se a melhor teoria política fosse julgada pelo critério de melhor
descrever a realidade da política, enquanto prática dos homens, teria ela que
necessariamente seguir o que Maquiavel propõe ao Príncipe Lourenço de Medicis?
Talvez, mas seria com muita probabilidade igualmente conservadora, por
permanecer demasiado apegada à necessidade de preservação do poder, sem
pretensão de transformar a realidade em um certo sentido.
Uma postura diferente da de Maquiavel e também da de Hayek em Ciência
Política seria aquela que não só pretendesse descrever como agem os homens
politicamente, mas como seria melhor agir para que a sociedade fosse mais
justa, no sentido de diminuir a desigualdade de renda entre os diferentes
grupos sociais, por exemplo. Nesse caso poderíamos falar da liberdade em um
sentido positivo. Ou seja, é a liberdade enquanto autodeterminação do homem ou
autonomia. O homem que tem autonomia pode propor-se regras de conduta moral e
fins racionais, como dizia I. Kant. Também G. F. Hegel enfatizou um conceito de
liberdade, mas esse não só como autonomia, mas como ordem social racional
realizável no contexto do Estado e dos fins propostos por esse. K. Marx pensou
diferente. Abandonou a liberdade moderna, para lutar pela igualdade, alcançável
somente pelo fim do capitalismo.
Mas essa postura carrega consigo o dilema: ou se produz uma sociedade
mais igualitária, no sentido de ter indivíduos mais iguais; ou se abre mão do
igualitarismo dando ênfase a liberdade individual. Esse dilema, foi bem
apontado por Hayek no caso. Em seu livro The constitution of liberty ele
afirma "o princípio da justiça distributiva, uma vez introduzido, não
poderia ser satisfeito até que toda a sociedade tivesse sido organizada segundo
ele. Isso iria produzir uma sociedade que, nos seus aspectos essenciais, seria
o oposto de uma sociedade livre". Hayek imagina como uma sociedade sem
liberdade aquela na qual a autoridade decidiria o que o indivíduo deveria fazer
e como.
O conceito de liberdade de Hayek não indica a liberdade política, no
sentido de liberdades, pois onde se fala de liberdade no sentido plural, já não
existe liberdade. Não indica a liberdade como liberdade interior ou autodeterminação
da vontade subjetiva em fazer algo independentemente das paixões. Não quer
significar poder, que nos conduz a identificá-la com riqueza. Mas será o
liberalismo de Hayek tão alheio a uma proposta de construção de um tipo de
sociedade, como pensa R. Bellamy? Não é ele próprio um construtor de modelos?
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