Ricardo
Bins de Napoli
A questão da Previdência Social no
Brasil tem sido abordada sob os mais diferentes ângulos. Só pela diversidade de
aspectos, que ela envolve, pode-se concluir a sua complexidade.
Sob a ótica das finanças públicas, impõe-se aos governos em todos os
níveis resolver o déficit público. Neste aspecto a questão é seríssima, pois
diz respeito a uma dívida de todos nós, embora poucos sejam os responsáveis
pela situação atual.
Do ponto de vista político, que depende da orientação do partido político
ou do representante face aos compromissos determinados que assumiu com sua base
eleitoral, seja da situação ou oposição, a resolução da Previdência, parece
implicar em interesses particularistas inconciliáveis.
O aspecto social e negativo do déficit da Previdência é que cada vez mais
se deixa o conjunto das pessoas, contribuintes, desasistidas. O jurídico, que envolve uma discussão sobre os direitos dos indivíduos
que entraram em um sistema que era diferente do atual, contribuíram
efetivamente toda sua vida profissional ativa e que agora vêem suas
expectativas frustradas, pois se defrontam com a possibilidade de voltar a
contribuir para a Previdência..
Há também o aspecto atuarial apontado pelo prof. da UFRGS Sérgio Rangel
Guimarães (ZH 22.10.99), que envolve distorções tremendas no sistema. A questão
da idade precoce das aposentadorias é uma delas. Em 1999, segundo dados apresentados por
Guimarães, a idade dos aposentados seria em média de 49 anos, quando hoje a
expectativa de vida é muito superior. No setor público em 1998, dois terços do
total de aposentadorias eram de pessoas com idade inferior a 55 anos. Ainda é
relevante o fato que 14% do total tinha idade inferior a 45 anos. Ora, segundo
entendo, qualquer plano de aposentadoria tem que prever que o tempo de
contribuição deve cobrir os valores a serem pagos no tempo em que a pessoa
ficar viva depois de aposentada.
Outra grande distorção, com a qual concordava Lula (artigo em ZH,
10.10.99), é o fato de que uma minoria recebe benefícios excessivamente altos,
como, por exemplo, os funcionários do legislativo e do judiciário. Esses, como
se sabe, recebem até mais de uma aposentadoria por terem exercido diferentes
cargos. Porque não só uma? Certamente há uma legislação que gera essas
distorções. A propósito, lembra Guimarães que 75% do déficit do ano de 1999 será
para o pagamento de apenas 3 milhões de aposentados de um total de 20 milhões.
Esses, inclusive, afirma, serão os maiores beneficiários da decisão do STJ.
Este fato ilustra também a situação daquelas aposentadorias elevadas pagas pelo
Estado do RS.
Lula queria, na época, atribuir todos os problemas da Previdência ao atual governo,
dizendo que foi ele que diminuiu a receita, pela sua política econômica
recessiva (Plano Real) que “empurrou milhões de brasileiros para a
informalidade”, pois entre 1990 e 1997 subiu o número de trabalhadores sem
carteira assinada, passando de 5% para 27% do total da população economicamente
ativa (ZH 10.10.99).
De fato parece ser verdade, admitida pelo próprio governo, que o déficit
da Previdência começou em 1995 ou até antes em 1993 (Zero Hora,
24.10.99). Mas as causas não se resumem às apontadas pelo líder do PT.
Um fato porém esquecido por muitos, inclusive por Lula, é que a
Constituição de 1988 estendeu os benefícios aos trabalhadores rurais (4,5
milhões de pessoas) e, com a unificação dos regimes jurídicos ampliou, no
serviço público, o benefício da aposentadoria integral a milhares de pessoas.
Tudo isso, ao que parece, sem prever de onde sairia o dinheiro. O então ministro da
Previdência Social Waldeck Ornélas, informou também, em entrevista jornalística
(ZH 24.10.99), que de fato os funcionários públicos, até 1993, nunca
contribuíram para a sua aposentadoria de forma adequada, pois os valores eram
inferiores aos necessários para custear o sistema. Isto é até surpreendente.
Por que o governo só se deu por conta agora? E os outros governos o que
fizeram?
Divulgou-se (ZH, 24.10.99) ainda dados de uma pesquisa realizada sobre a
Previdência, que desde a sua criação em 1966, foram desviados 400 bilhões de
reais.
Creio que o leitor já deve ter percebido que o problema existe há muito tempo, e não é
uma questão deste ou daquele partido, pois aos níveis estaduais e municipais a
questão não é diferente com os benefícios pagos aos servidores.
A questão da Previdência merece, por isso também um enfoque ético, que
deveria orientar o debate. Neste sentido fica a pergunta: diante do problema a
ser resolvido: o que é mais justo de modo a não prejudicar os
contribuintes (empregados e funcionários) de salários baixos e médios? A
consideração deste aspecto da justiça é responsabilidade do Congresso. É
responsabilidade de todos os cidadãos cobrar de seu representante uma posição adequada ao momento atual.
A respeito da previdência social estatal no Brasil, tem-se indubitavelmente que ela está defasada atuarialmente em relação às idades. Atentar também para o saque de verbas, como fez o marido na "narizinho". E outra coisa, a lei "deveria" ser igual para todos, mas não é. É o caso dos trabalhadores da iniciativa privada comparativamente a certas castas de funcionários públicos e militares, que são de primeira classe, aqueles, de segunda. Os primeiros tem teto salarial equivalente a 10 salários de contribuição, enquanto estes tem salários integrais. Afora os poderes legislativo e judiciário, cada qual com seus regimes próprios. Creio que a solução para o déficit previdenciário seja tornar todos iguais perante a lei. Simples assim. Mas o legislativo e o judiciário, contra seus interesses, deixarão?
ResponderExcluirHugo Gutterres
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