É possível separar a ética da política? Norberto Bobbio, que é um dos mais importantes pensadores políticos contemporâneos, conhecido no Brasil com um número significativo de obras disponíveis ao leitor brasileiro, sugere que sim. Mas essa resposta deve ser relativizada e criticada.
Embora Bobbio transite tanto por análises teóricas como por análises mais empírico-históricas, ele faz questão de distinguir o campo da Filosofia Política e o da Ciência Política. Quanto à primeira, caberia a pesquisa sobre a melhor forma de governo ou república, sobre o fundamento do poder político, sua justificação, e sobre a noção mesma do político; a segunda seria responsável pela pesquisa empírica dos fenômenos concretos da política, abstendo-se do julgamento de valor sobre os fatos investigados, mas submetidos ao processo de crítica à falsificação dos resultados obtidos.
Das questões envolvidas pela Filosofia Política, duas não só são diretamente relacionadas com questões de valores, como Bobbio bem admite, pois implicam distingüir a boa e a má forma de governo ou república, como também visam a encontrar um bom fundamento para o poder. Essas características marcam, ao meu ver, diretamente a presença da Ética na reflexão política.
Mais importante ainda é o fato de Bobbio admitir que a separação entre Filosofia Política e Ciência Política é "lábil e discutível". Justamente aí está um ponto central da questão. Bobbio é consciente das dificuldades da separação radical que faz. Eu diria mais: o pior não é reconhecer uma distinção entre elas, mas usar essa distinção para desqualificar a investigação filosófica como "abstrata" ou, de qualquer modo, como menos importante. Mesmo Maquiavel, tomado pelos defensores da Ciência Política como o marco da distinção entre Filosofia (Ética) e Política (Ciência Política), pode ser lido como um republicanista. Ele enfatiza a idéia de ser importante que os governos criem canais autorizados para os homens extravazarem suas paixões, e não porem em risco o próprio governo.
Se a Filosofia Política foi capaz, como bem expressou Renato Lessa, de propor mundos possíveis com capacidade de permanência, enquanto modelos, que nos permitem comparar o que vemos, pois agregam, entre outros elementos, por exemplo, paradigmas de justiça e de racionalidade prática, por que desqualificá-la? Não foram os filósofos liberais e igualitaristas responsáveis por idéias que hoje se traduzem em vários direitos conquistados nas sociedades democráticas atuais, como liberdade de expressão e direito de voto das mulheres, impensáveis há quatro séculos?
Não seriam também motivos ético-políticos que nos permitiriam condenar publicamente, ainda que de forma diversa, a violência das gangs de traficantes, as invasões do MST e dos militantes de partidos ditos de esquerda que queimaram, há algum tempo, o relógio comemorativo dos 500 anos em Porto Alegre?
Esses grupos, ao usar métodos violentos, negam total ou parcialmente a sociedade política democrática instaurada e querem, à margem das regras, por canais não legitimados por ela, modificá-la a seu modo, isto é, por meio da violência. A violência não legítima, arbitrária, fere a liberdade coletiva, condição fundamental da democracia.
À luz desses fatos, não se pode aceitar a posição de Bobbio que propõe a separação entre a Ciência Política e a Filosofia Política, defendendo a Ciência. Essa segunda trataria de explicar simplesmente, em termos de relações causais, a violência praticada tanto por traficantes, por membros do MST, como por militantes políticos, por exemplo.
Complementando as explicações da Ciência Política, teria-se ainda que nos perguntar, se esse tipo de sociedade é boa e o que se pode fazer para melhorá-la, a fim de que esses fatos não façam mais parte de nosso cotidiano. O mesmo valeria para a violência da polícia, quando esta excede suas atribuições.
A Ética contida nas análises filosóficas da política, a meu ver, portanto, complementa a Ciência Política e de forma alguma proprõe substituí-la.
A Ética contida nas análises filosóficas da política, a meu ver, portanto, complementa a Ciência Política e de forma alguma proprõe substituí-la.